João Tordo diz da melhor forma descritível aquilo que sinto em relação aos livros de José Rodrigues dos Santos:
A divisão entre os que "trabalham a linguagem" e os que "contam histórias" é a ideia mais absurda que pode existir em literatura. A literatura é linguagem: ponto final. É forma de contar, é "maneira" de dizer, é a construção de uma voz inequívoca que conta e que diz; aí reside a originalidade de um escritor e a sua arte. Qualquer pessoa pode "contar uma história" - o meu vizinho, o senhor do café, a minha avó... Por outro lado, são em muito menor número os que sabem (e podem) escrever literariamente. Miguel Real escreve (e bem): "Eis porque a obra de JRS é academicamente mal vista: nada de novo traz à categoria de personagem, nada de novo traz à categoria de acção, de enredo, de tempo, de forma estética".
Contar uma história não tem nada a ver com literatura: todos o fazemos, todos os dias, a todas as horas. "Contar bem" uma história, como reivindica JRS, continua a não ter nada a ver com literatura. Qualquer filme menor americano conta razoavelmente bem uma história. A literatura não pode ser polarizada desta maneira porque acontece-lhe uma coisa curiosa: deixa de o ser. Trabalhar a linguagem é o dever de qualquer escritor - ou, pelo menos, o de qualquer escritor cuja existência e essência se confundam, isto é, aquele que procura, com os livros que escreve, abrir uma brecha no muro de pedra em que a realidade se constitui; essa linguagem - ou essa voz, ou essa forma - constituem, por si só, a história de um livro. Isto é: um romance é a forma de contar um romance; a voz que se constrói com as palavras. E esta polarização do absurdo é muito cansativa.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
coices de rabo de vaca
Albano, dada a sua competência, ficou com o arado, que exigia força e controlo. E que ingrata missão a sua, sujeita a tamanha força de braços e domínio astuto sobre o utensílio que tanto depende da dureza e irregularidade da terra, como do próprio movimento inconstante das vacas que, por mais bem dominadas que sejam, não deixavam de ser animais irracionais. Mas a tirania maior da sua tarefa estava mesmo na irracionalidade dos animais que, ao bambolearem a sua cauda, talvez para sacudir as moscas ou mesmo para punirem o intrometido, lhe acertavam com força no corpo. O pobre Albano, além de se esfalfar com a difícil condução do veículo agrícola, ainda era brindado com uns coices de rabo de vaca, a que o Fausto chamava de abre olhos. A grande tirania é que Deus fez as vacas com as caudas apostas ao ânus. Ora, ficando as caudas imundas em merda, alguma mais seca e pesada que sobrava de resquícios anteriores, outra ainda morna da evacuação mais recente, imagine-se a brutalidade que é levar-se com uma pancada excrementícia daquelas na tromba enquanto se empurram vinte quilos de ferro pela terra fora.
E, nem de propósito, foi logo a meio do segundo rego que uma das vacas se lembrou de pôr em ação a sua investida mais baixa e acertou na cabeça do rapaz. A sorte foi que ele vinha com ela abaixada e a cauda lhe acertou de raspão, o que ainda assim não deixou de ser uma grande irritação para Albano, sobretudo depois de ouvir a gargalhada jocosa do irmão.
Mas não foi isso que desencorajou o rapaz, e o arado continuou a bulir, rasgando a terra para as batatas que haveriam de vir. A ti Maria e a ti Jesuína vinham abaixadas sobre os costados pé ante pé, a colocar as batatas a distâncias de dois pés, já imunes à dor do arqueio das costas. O João Tolo e a Coelha vinham lado a lado como que a disputar uma corrida, tapando os regos com a enxada e empurrando a terra ágil e subtilmente.
O sol não dava tréguas e nem as poucas nuvens que pairavam no céu se atreviam a fazer-lhe frente e a atenuar um pouco aquele calor sufocante. Nem uma brisa corria para incentivar os trabalhadores, que se sentiam cada vez mais parte da terra, como se se preparassem para derreter e ficarem ali debaixo dela junto com as batatas. Mas o trabalho ensinara-lhes a resistir a tudo e o sacrifício era inerente às suas vidas, fazia parte do seu quotidiano e, como dizia o Avô Albano, havia alguns que já não podiam viver sem ele.
O terreno parecia não acabar. Quando se começavam os regos de cima, parecia não se ver o fim, perdido na indefinição que o calor abrasador impunha ao horizonte. Mesmo as vacas pareciam cansadas de tanto andarem abaixo e acima, num frete interminável, que até lhes tirava as forças para atacar o opressor com a sua cauda perigosa.
- Quantos regos temos de batatas? – vociferava a ti Maria para a Coelha, a quem incumbira de contar.
- Eu contei cinquenta e dois.
- Está bom. Tapem os que faltem e vamos passar para o milho.
O sol foi descendo vagarosamente e terminaram o trabalho já em cima do crepúsculo. Era quase como as doses do escoado da ti Maria, eram sempre certinhas. A comida acabava quando a fome se extinguia e o trabalho concluía-se mesmo quando o sol se punha. É mais uma mostra da sabedoria campestre, que trabalha mais com o instinto do que com os livros, mas que não deixa de ser tão exata quanto a outra.
Albano sentia os braços e as pernas tremerem-lhe involuntariamente, tinha os farrapos a que chamava roupa imundos de terra e a cara escura do sol, do pó e dos restos de esterco. Era o retrato mais visível da violência a que os corpos eram sujeitos para o sustento da família. Retrato não só de uma família ou de uma região, mas de um país que, em plena segunda metade do século XX, ainda vivia agarrado à terra e dependente das duas mãos que trazia agarradas ao corpo para desbravá-la com ferramentas rudimentares da Idade do Ferro. Mas valia-lhes a honra de um país com uma história e passado gloriosos e a grande respeitabilidade da Presidência do Conselho, que tinha uma visão extraordinária de enriquecimento do país, que consistia na magnífica ideia de tirar aos vivos aquilo que eles precisavam para viver, porque só assim se constrói um grande património, passando fome e privação, em prol de um objetivo maior.
Valia-lhes acima de tudo a fé em Deus, que tudo vencia e tudo fazia esquecer. O corpo estava pobre e fraco mas a alma envolta numa riqueza inesgotável e assegurada pela vida eterna. E assim se ia vencendo a fome e as enfermidades, com a esperança num futuro melhor, até porque pior era difícil.
E, nem de propósito, foi logo a meio do segundo rego que uma das vacas se lembrou de pôr em ação a sua investida mais baixa e acertou na cabeça do rapaz. A sorte foi que ele vinha com ela abaixada e a cauda lhe acertou de raspão, o que ainda assim não deixou de ser uma grande irritação para Albano, sobretudo depois de ouvir a gargalhada jocosa do irmão.
Mas não foi isso que desencorajou o rapaz, e o arado continuou a bulir, rasgando a terra para as batatas que haveriam de vir. A ti Maria e a ti Jesuína vinham abaixadas sobre os costados pé ante pé, a colocar as batatas a distâncias de dois pés, já imunes à dor do arqueio das costas. O João Tolo e a Coelha vinham lado a lado como que a disputar uma corrida, tapando os regos com a enxada e empurrando a terra ágil e subtilmente.
O sol não dava tréguas e nem as poucas nuvens que pairavam no céu se atreviam a fazer-lhe frente e a atenuar um pouco aquele calor sufocante. Nem uma brisa corria para incentivar os trabalhadores, que se sentiam cada vez mais parte da terra, como se se preparassem para derreter e ficarem ali debaixo dela junto com as batatas. Mas o trabalho ensinara-lhes a resistir a tudo e o sacrifício era inerente às suas vidas, fazia parte do seu quotidiano e, como dizia o Avô Albano, havia alguns que já não podiam viver sem ele.
O terreno parecia não acabar. Quando se começavam os regos de cima, parecia não se ver o fim, perdido na indefinição que o calor abrasador impunha ao horizonte. Mesmo as vacas pareciam cansadas de tanto andarem abaixo e acima, num frete interminável, que até lhes tirava as forças para atacar o opressor com a sua cauda perigosa.
- Quantos regos temos de batatas? – vociferava a ti Maria para a Coelha, a quem incumbira de contar.
- Eu contei cinquenta e dois.
- Está bom. Tapem os que faltem e vamos passar para o milho.
O sol foi descendo vagarosamente e terminaram o trabalho já em cima do crepúsculo. Era quase como as doses do escoado da ti Maria, eram sempre certinhas. A comida acabava quando a fome se extinguia e o trabalho concluía-se mesmo quando o sol se punha. É mais uma mostra da sabedoria campestre, que trabalha mais com o instinto do que com os livros, mas que não deixa de ser tão exata quanto a outra.
Albano sentia os braços e as pernas tremerem-lhe involuntariamente, tinha os farrapos a que chamava roupa imundos de terra e a cara escura do sol, do pó e dos restos de esterco. Era o retrato mais visível da violência a que os corpos eram sujeitos para o sustento da família. Retrato não só de uma família ou de uma região, mas de um país que, em plena segunda metade do século XX, ainda vivia agarrado à terra e dependente das duas mãos que trazia agarradas ao corpo para desbravá-la com ferramentas rudimentares da Idade do Ferro. Mas valia-lhes a honra de um país com uma história e passado gloriosos e a grande respeitabilidade da Presidência do Conselho, que tinha uma visão extraordinária de enriquecimento do país, que consistia na magnífica ideia de tirar aos vivos aquilo que eles precisavam para viver, porque só assim se constrói um grande património, passando fome e privação, em prol de um objetivo maior.
Valia-lhes acima de tudo a fé em Deus, que tudo vencia e tudo fazia esquecer. O corpo estava pobre e fraco mas a alma envolta numa riqueza inesgotável e assegurada pela vida eterna. E assim se ia vencendo a fome e as enfermidades, com a esperança num futuro melhor, até porque pior era difícil.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
O bilhete
A partir de hoje vou lançar uma série de pequenos excertos de uma história que me estou a atrever a escrever. São pequenas passagens, que podem ou não ter ligação entre elas, e que falam de determinado episódio ou personagem ou alguma situação que ache interessante.
O BILHETE
O bilhete pousado sobre a mesa tirou-lhe a boa disposição que o acompanhava desde a escola. Fausto José trazia resquícios de sorrisos matreiros depois de se ter despedido de Rosinda, com uma surripiada apalpadela no rabo que fez a pequena corar de vergonha, ainda que não conseguisse esconder a contorcida satisfação.
"Há broa no armário. Come e vem ter ao Lameiro"
A primeira frase agradou-o, a segunda nem tanto. Tinha combinado ir armar costelos com o Zé Fernando, tratado entre os amigos por Safarriã, brilhante alcunha atribuída nunca se chegou a saber por quem, mas que tinha pleno significado na desconstrução nominal que deslindava o tríplice frásico francês Saint fait rien, dada a sua excelente apetência para a prática da mandriagem ou, se quisermos ser menos incriminatórios, para a escapatória aos deveres caseiros. Apesar de ter previsto uma tarde profícua na captura de tordos e piscos com o seu primo e amigo Safarriã, tinha encontrado o bilhete em cima da mesa que alterava todos os seus planos. O bilhete era soberano. Sabia as consequências que a desobediência à autoridade daquele pedaço de papel rasgado trariam à compleição do seu rabo. (E nada como começar uma boa história com a repetição da palavra rabo). É que, de fato, não seria a primeira nem a segunda vez que o rabo de Fausto José seria massacrado pela colher de pau ou pela mão pesada da ti Maria, caso não cumprisse as ordens estipuladas pelas letras tremidas devido à força da enxada mas garrafais para não passarem despercebidas. Alegar que não tinha visto o papel não era definitivamente uma boa ideia, já havia tentado em vezes anteriores, mas apenas numa ou outra ocasião, quando a ti Maria viera bem-disposta pela qualidade das batatas, lindas e graúdas, ou quando enchera todos os sacos de pinhas pensando que apenas conseguiria encher metade, é que se escapara à austeridade da madeira da colher.
Apesar das diversas justificações que apresentara, raramente era levado a sério e considerado inocente. Mas não se lhe podia menosprezar a imaginação: ou era porque tinham deixado a porta entreaberta e o bilhete tinha sido levado por uma corrente de ar, ou porque estava atrás da fruteira e ele não o tinha visto, ou porque já tinha combinado ajudar o Safarriã numa qualquer tarefa e não tinha sequer vindo a casa, ou tinha apanhado o Cipriano Batalha no caminho que o obrigara a acompanhá-lo à tasca do Cardoso. Mesmo que tivesse razão, o que era raro, apanhava na mesma, até porque umas açoitadas no lombo só lhe eram benéficas, enrijavam-lhe o corpo e a mente.
A broa, cozida no forno nessa manhã, ainda a sentia quente, embrulhada no pano grosso de cozinha, e, quando lhe barrou a margarina por cima, viu-a amolecer-se passado uns instantes na massa fofa e apetitosa. Não havia nada melhor no mundo do que a broa quente da ti Maria e, só por isso, sabia que não podia faltar à obrigação que o esperava no Lameiro. Era quase uma heresia se o fizesse. Era como terminar um pai-nosso pedindo pelo pão nosso de cada dia, sem ter a decência de acabar a oração pedindo perdão pelas ofensas nem perdoando os que nos ofenderam. Mesmo de tenra idade, Fausto José já sabia a importância que a sua ajuda e dos seus irmãos tinha na geração do pão de cada dia, porque sem trabalho, sem as mãos sujas da terra, sem o peso da enxada às costas e as gretas do ancinho nas mãos, não havia pão, assim ia rezando diariamente o mesmo fado a ti Maria.
O BILHETE
O bilhete pousado sobre a mesa tirou-lhe a boa disposição que o acompanhava desde a escola. Fausto José trazia resquícios de sorrisos matreiros depois de se ter despedido de Rosinda, com uma surripiada apalpadela no rabo que fez a pequena corar de vergonha, ainda que não conseguisse esconder a contorcida satisfação.
"Há broa no armário. Come e vem ter ao Lameiro"
A primeira frase agradou-o, a segunda nem tanto. Tinha combinado ir armar costelos com o Zé Fernando, tratado entre os amigos por Safarriã, brilhante alcunha atribuída nunca se chegou a saber por quem, mas que tinha pleno significado na desconstrução nominal que deslindava o tríplice frásico francês Saint fait rien, dada a sua excelente apetência para a prática da mandriagem ou, se quisermos ser menos incriminatórios, para a escapatória aos deveres caseiros. Apesar de ter previsto uma tarde profícua na captura de tordos e piscos com o seu primo e amigo Safarriã, tinha encontrado o bilhete em cima da mesa que alterava todos os seus planos. O bilhete era soberano. Sabia as consequências que a desobediência à autoridade daquele pedaço de papel rasgado trariam à compleição do seu rabo. (E nada como começar uma boa história com a repetição da palavra rabo). É que, de fato, não seria a primeira nem a segunda vez que o rabo de Fausto José seria massacrado pela colher de pau ou pela mão pesada da ti Maria, caso não cumprisse as ordens estipuladas pelas letras tremidas devido à força da enxada mas garrafais para não passarem despercebidas. Alegar que não tinha visto o papel não era definitivamente uma boa ideia, já havia tentado em vezes anteriores, mas apenas numa ou outra ocasião, quando a ti Maria viera bem-disposta pela qualidade das batatas, lindas e graúdas, ou quando enchera todos os sacos de pinhas pensando que apenas conseguiria encher metade, é que se escapara à austeridade da madeira da colher.
Apesar das diversas justificações que apresentara, raramente era levado a sério e considerado inocente. Mas não se lhe podia menosprezar a imaginação: ou era porque tinham deixado a porta entreaberta e o bilhete tinha sido levado por uma corrente de ar, ou porque estava atrás da fruteira e ele não o tinha visto, ou porque já tinha combinado ajudar o Safarriã numa qualquer tarefa e não tinha sequer vindo a casa, ou tinha apanhado o Cipriano Batalha no caminho que o obrigara a acompanhá-lo à tasca do Cardoso. Mesmo que tivesse razão, o que era raro, apanhava na mesma, até porque umas açoitadas no lombo só lhe eram benéficas, enrijavam-lhe o corpo e a mente.
A broa, cozida no forno nessa manhã, ainda a sentia quente, embrulhada no pano grosso de cozinha, e, quando lhe barrou a margarina por cima, viu-a amolecer-se passado uns instantes na massa fofa e apetitosa. Não havia nada melhor no mundo do que a broa quente da ti Maria e, só por isso, sabia que não podia faltar à obrigação que o esperava no Lameiro. Era quase uma heresia se o fizesse. Era como terminar um pai-nosso pedindo pelo pão nosso de cada dia, sem ter a decência de acabar a oração pedindo perdão pelas ofensas nem perdoando os que nos ofenderam. Mesmo de tenra idade, Fausto José já sabia a importância que a sua ajuda e dos seus irmãos tinha na geração do pão de cada dia, porque sem trabalho, sem as mãos sujas da terra, sem o peso da enxada às costas e as gretas do ancinho nas mãos, não havia pão, assim ia rezando diariamente o mesmo fado a ti Maria.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
sociedade
"A loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea. Quando dá a uma pessoa só, interna-se essa pessoa"
Afonso Cruz, em Jesus Cristo bebia cerveja
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Não me venham com tretas, Saramago é um génio da língua portuguesa
José Saramago é um génio da literatura portuguesa. Goste-se ou não, é o escritor português que mais bem soube captar a essência da nossa língua, das suas origens, a amplitude das suas possibilidades. Saramago dá à língua portuguesa uma dimensão universal pelo aprofundamento e pela exploração máxima das suas características. Consegue transportar toda uma cultura com 9 séculos de história, e pegando nos nossos formalismos, nos nossos provérbios, expressões: explora-as, subverte-as, reinventa-as, e o resultado é uma linguagem riquíssima, requintada e inigualável.
Estou neste momento a ler "As Intermitências da Morte", talvez o 8º ou 9º livro que leio da sua autoria e, não que tivesse algumas dúvidas quanto a isso, mas senti vontade de expor esta minha admiração profunda. Cada frase que sai dos seus livros é uma mostra de genialidade. Um autor que combina o perfeito domínio da língua, com uma inteligência refinadíssima, uma boa dose de sarcasmo e crítica à sociedade, mais propriamente ao homem e à sua existência animalesca, sem filtros de hipocrisia.
É certo que a sua escrita pode ser de difícil leitura, não o nego. Mas como o próprio dizia: "eu confio ao leitor a competência e a sensibilidade para acompanhar o meu discurso". Numa entrevista que encontrei há pouco tempo no youtube, ele dizia que a sua escrita se assemelha de certa forma à música, que, no fundo, é feita de sons e pausas. E o ponto e a vírgula (únicos sinais de pontuação que utiliza nos seus romances) são não sinais de pontuação, mas sinais de pausa: uma pausa breve e uma pausa mais longa.
Os seus livros são peças musicais que o leitor tem de se esforçar e comprometer a acompanhar para entender a melodia. E ela está lá, basta desprender-mo-nos da nossa preguiça e cepticismo.
É por isso que me aborreço imenso quando tratam José Saramago como um impostor, anti-patriota, herege, comunista (com o sentido depreciativo que geralmente é atribuído aos militantes deste partido), isto tudo combinado dá uma mistura explosiva que resulta num canalha da pior espécie.
Saramago foi uma pessoa geradora de controvérsia e polémica, mas, no fundo, era apenas um homem que não aceitava o mundo tal como está como tendo origem divina. Para ele, era impossível acreditar e louvar um Deus que permitisse a crueldade a que assistimos neste mundo. Ele compreende os "criados", o seu comportamento, os seus vícios, as suas falhas - e expõe-as como ninguém - o que não compreende é o "Criador", esse ser todo-poderoso que, a sê-lo, deveria criar um mundo justo e fraterno.
Pê, espero que este pequeno texto te incentive a estudar com mais vontade este nosso escritor único, que não é por acaso que é o único merecedor de um Prémio Nobel da Literatura, não só de Portugal, mas de todos os países de língua portuguesa.
sábado, 27 de abril de 2013
O velho que lia romances de amor
O velho que lia romances de amor, de Luis Sepulveda, é um livro que, com pouco mais de 100 páginas, consegue transmitir mais do que toda a obra junta de muitos autores. As palavras são aquelas, têm de ser exactamente aquelas e se retirarmos ou alterarmos qualquer um delas, alteramos toda a envolvência das frases.
O livro retrata a história de José António Bolivar e a sua relação com a grande floresta amazónica, as suas tribos e a ação destrutiva do homem na captura das suas riquezas naturais. Sepulveda, com o seu poder descritivo e sensorial, transporta-nos para dentro da selva, mostra-nos toda a riqueza da sua fauna e flora, faz-nos sentir os cheiros intensos das plantas e flores, os sons únicos dos animais, a humidade e a terra debaixo dos pés.
Um livro que me absorveu de início ao fim, e me deixou um profundo desgosto quando terminou, por querer mais. Há bastante tempo que não encontrava um livro que me cativasse tanto e deixo, por isso, a minha recomendação.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Os 3 livros da minha vida
Há dias navegava no blog do Arrumadinho quando deparei com um passatempo interessante proposto por ele em parceria com a Book.it, e que consistia em seleccionar os 3 livros da minha vida. Achei um desafio muito pertinente. Não sou propriamente um leitor compulsivo, nem tenho um repertório assim tão vasto de obras lidas, no entanto, achei por bem fazer uma reflexão sobre os livros que mais me marcaram e, eis o resultado:
O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
Este livro, o mais famoso de Oscar Wilde, revela o verdadeiro
génio literário deste autor. Acima de tudo, aprecio a negação do óbvio, do
certo, daquilo a que nos obrigaram a tomar como inquestionável. Os seus personagens
mostram uma visão diferente do mundo, como refere Lord Henry a determinada
altura: “sou capaz de acreditar em tudo, desde que seja perfeitamente
inacreditável”. Esta obra é também uma exultação da beleza na arte,
condição vital à (in)sanidade do autor, ainda que a considere perfeitamente
inútil. A beleza de Dorian Gray é de tal forma exacerbada que nos faz tomá-la
como a mais importante das virtudes, mais sublime que o intelecto, por não
precisar de explicação. O livro é assim, um mar de ensinamentos não ortodoxos,
insubordinados, contestando as verdades inquestionáveis e fomentando o
pensamento liberal, autónomo e artístico.
Ensaio sobre a Cegueira – José Saramago
Sou um fã de Saramago. Esta obra é de uma crueza e
intensidade tão fortes que me fez tremer ao pensar na desumanidade da
humanidade face à catástrofe, neste caso da cegueira mundial idealizada pelo
escritor. O filme (como quase sempre acontece para quem lê primeiro o livro)
está longe da intensidade do livro. Conseguimos perceber nas suas linhas o
desespero, ver a imundície, captar a barbárie e o arrepio de pensar que o Homem
civilizado se pode transformar de tal forma e abandonar todos os princípios e
valores com os quais cresceu e aprendeu a viver e respeitar. Escolhi este livro
de entre os restantes do autor por ser o que mais me emocionou, o que mais me
susteve. É incrível perceber que um livro pode ter o poder de um filme, de uma
pintura, de uma fotografia, no fundo, de todas as formas de arte juntas num
propósito comum de nos fazer “ver” verdadeiramente aquilo que pensamos não ser
possível num conjunto de linhas.
A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón
A Sombra do Vento “absorveu-me” sofregamente. Uma escrita inteligente
e complexa (embora seja essa complexidade que me fez querer entrar na história)
e uma história enigmática e desafiante. O autor explora os caminhos fantásticos
que os livros proporcionam, a possibilidade de sonhar com algo mais, de elevar
o ser, de querer ser mais, saber mais, conhecer o mundo e a vida. A personagem
principal, ao afeiçoar-se ao livro oferecido pelo pai, entra de tal forma na
sua história, que a determinada altura confunde as duas realidades (a do livro
e a sua). Zafón revela-nos o extraordinário poder do livro e a forma como ele
pode mudar a nossa vida, transformá-la e fazer parte do nosso próprio carácter.
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